A VIAGEM
A VIAGEM
“...é muito tempo na estrada, muito tempo...”
“...é muito tempo na estrada, muito tempo...”
Eu recebi de meu diretor
sociedade em uma de suas empresas. Para comemorar convidou me a uma viagem à
negócios para a Itália. Iriamos visitar um fornecedor de equipamentos na cidade
de INVERUNO, região de Milão.
Ele levaria a esposa, então me contemplou com a possibilidade de levar uma acompanhante.
Não preciso nem dizer o primeiro nome que me passou pela cabeça: Vanessa.
Ele levaria a esposa, então me contemplou com a possibilidade de levar uma acompanhante.
Não preciso nem dizer o primeiro nome que me passou pela cabeça: Vanessa.
Mas, como estávamos
distantes há muito tempo, convidei uma amiga italiana para essa viagem.
Do embarque até a chegada
a Itália, ocorreram varias situações onde não havia como evitar de não pensar em
Vanessa junto a mim nessa aventura. Temos alma aventureira, uma vontade de
viver intensamente cada momento. Deliciamo-nos com pequenas coisas que
normalmente outros não veem. Não procuramos coisas ou momentos para nos
alegrar. Simplesmente os encontramos.
No aeroporto, após o
check-in, fui procurar um lugar para um café expresso junto com minha amiga.
Assim que sentei a mesa e peguei na xicara minhas lembranças começaram a
aflorar. Comecei a viajar-nos vários cafés que tomei com Vanessa,
principalmente em sua cozinha.
Toda manhã, quando estava
em sua casa, sentávamos em um balcão e ficávamos frente a frente. Era um
momento único onde eu presenciava um ritual todo seu.
Quando levanta, ela
precisa de pelo menos duas xicaras de café para voltar à vida. Sem isso
funciona abaixo dos 20% de sua energia e paciência. Após o café a disposição é
plena. Então, o segredo de um bom começo
de dia com Vanessa, está em esperar que tome seu primeiro café. Melhor ainda se
o providenciar.
Ali, naquela mesinha do
aeroporto, dei meu primeiro sorriso de saudades. E esse sorriso se faria
presente durante os inúmeros cafés que tomaria na viagem. Em cada um dos Bares,
Caffè e Patizzerie da Itália em que
parei, não havia como não imagina-la ali. Sua paixão por café era contagiante.
Um
comentário. Até nos conhecermos, Vanessa não tomava café. Foi em nosso local de
trabalho, convivendo com os vendedores que ela aprendeu a gostar. Nós, vendedores,
éramos viciados em café.
Já
na Itália, no primeiro café que pedi, imaginei sua reação assim que vi aquela
pequena xicara com apenas um pouco de café. Seria divertido vê-la discutindo
com o atendente, pedindo para colocar mais.
É
que se você entra em um bar e pede um café, eles consideram que você pediu um “caffè normale”, significa que vai receber uma
xicarazinha cheia até a metade com um delicioso café cremoso, de uma espuma
densa por cima. Esse é o café para ser tomado em um único gole e muitos
italianos tomam até sem açúcar.
Para
os brasileiros fanáticos que não queiram se aventurar na tradição italiana a
melhor coisa é pedir um “caffé lungo”. Aí sim a sua xicarazinha vai vir cheia
quase até a boca, mas o café é sempre forte e cremoso.
Não tenho em minha
memoria olfativa nenhum perfume que me remeta a Vanessa. Mas o aroma de café,
hum... Esse é inevitável.
Já na chegada em Milão, na
confusão das danças das malas na esteira, eu a via, tomando a frente para
resolver as coisas. Essa imagem me fazia rir.
Uma vez ela me disse que
seu último maridos, o que ela chamava de italiano, ficava bravo por ela sempre
fazer o pedido nos restaurantes. Não sei por que ela tinha essa necessidade de
tomar a frente nas coisas. Comigo ela fazia questão de fazer a mesma coisa. Mas
não apenas nos restaurantes. Mas em todo lugar. Realmente isso é muito chato.
Só que diferentemente dele, eu não ligava.
Quando ela fazia isso
comigo eu não me incomodava, pelo contrário, sempre achava engraçado. Com
certeza, seria isso que ela faria naquela confusão de pessoas aguardando as
malas na esteira.
Ali, naquele mar de malas
passando, foi difícil explicar para meus companheiros de viagem o que eu estava
achando engraçado. Mas não dava para explicar. O sorriso disfarçado em meu
rosto iria correr muitas vezes ainda.
Essa não era a primeira
viagem de meu diretor e sua esposa a Itália. Eles já conheciam os lugares,
assim como minha amiga. Todo esse conhecimento me levou a conhecer e comer nos
melhores restaurantes de Milão e Torino. Não apenas em nome, mas em qualidade.
Às vezes, nos
restaurantes, eu imaginava Vanessa deliciando as massas. Ela tinha um pequeno
ritual que era marcante também. Quando provava algo que julgava extremamente
saboroso, tinha o hábito de fechar os olhos, balançar a cabeça e dizer
– Hum... Experimenta isso!
Em seguida daria um pouco
para eu provar e ficaria olhando para ver minha reação. Depois, com certeza,
fotografaria o prato e enviaria a foto a seu filho.
E a cada taça de vinho,
lembrava-me nossos tantos brindes em tantos lugares diferentes.
Seguindo a viagem: Milão,
Turim, Zurique... Quantas e quantas vezes desejei sua presença.
Eu não lhe disse nada
quando marquei e fiz essa viagem. Estávamos distantes e eu finalmente havia me
comprometido a aceitar e respeitar seu distanciamento. Se tivesse sido
diferente, com certeza teria lhe mandado muitas fotos e muitos comentários.
Mas isso não impediu que
em cada local, comprasse uma lembrança para ela. Algo sem sentido naquela
altura, pois ao contrario de tantas lembranças que já lhe comprei essas eu não
sabia se teria oportunidade de entregar-lhe. Mas isso não importava.
Presentear para mim
sempre foi uma atitude egoísta. Me faz um bem danado ver a alegria de quem amo
recebendo um presente meu. Logo, quando assim faço, é a mim que estou
presenteando.
Na verdade eu não pensava
em lhe comprar nada, simplesmente as coisas saltavam-me aos olhos como que
pedindo para leva-las até ela. E assim foi.
Quem em uma viagem a
Europa, compraria um sabonete para dar de presente?
Eu...claro! Em Torino.
Para mim tinha muito há ver, pois imaginei esse sabonete na cabeceira da banheira de Vanessa.
Para mim tinha muito há ver, pois imaginei esse sabonete na cabeceira da banheira de Vanessa.
Quem, na cidade
mundialmente conhecida como a capital da moda italiana, compraria um simples
xale, de uma cor que nunca viu sua presenteada usar?
Eu...claro! Em Milão.
Nesse caso não havia explicação para essa escolha, a não ser simples intuição.
Nesse caso não havia explicação para essa escolha, a não ser simples intuição.
Fazia-me muito bem
comprar-lhe presentes e imagina-la recebendo-os. Vanessa é uma das poucas
pessoas que me dá uma enorme alegria em presentear.
Em uma escapada rápida
ida com meu diretor até Zurich, eu comprei o que considero sua segunda paixão
gastronômica após o café, e que também, de certa forma, da um pouco mais de
sentido a sua vida: Chocolate.
Sim, Vanessa era uma
chocólatra.
Comprei uma caixa grande
e variada com mais deliciosos chocolates Suíço. Pena que na demora em reencontra-la no Brasil,
eles derreteram e eu acabei comendo. Rsrsrs
Na saída da loja de
chocolates em Zurich eu quase fui atropelado por um bonde Suíço. Estava encantado com os chocolates que comprei
para minhas filhas e para Vanessa, que sai sem olhar para os lados. Como os bondes
suíços são elétricos e fazem pouco barulho. Por pouco não aconteceu um acidente.
Como sempre, tudo que
envolve Vanessa acaba virando história.
Após alguns dias, meu
diretor e sua esposa retornaram ao Brasil. Eu e a italiana ficaríamos mais
alguns dias. Eu tinha planos para esses
dias desde que sai do Brasil.
Já é sabido que minha
companheira de viagem era italiana, isso facilitou e encorajou muito a ideia
que eu tinha em alugar um carro e cair nas estradas, algo que gosto muito de
fazer, mas não estava muito seguro por não dominar o idioma e por essa ser
minha primeira viagem ao país. Com ela ao meu lado, tinha toda segurança que
precisava.
Após deixar o casal de
amigos no aeroporto, alugamos um carro em Milão. Um adorável Fiat Cinquecento., Nada mais italiano para essa aventura.
Partimos com destino a
Genova. Ai, como diz a expressão popular: O bicho pegou e a saudade de Vanessa apertou
mais ainda.
Entende agora por que
disse antes que essa viagem foi feita a três?
Minha amiga italiana era
uma boa companhia. Ria e falava muito. Nunca vou esquecê-la ao meu lado no
carro, vidro aberto com o vento em seus cabelos, sentado de lado no banco, meio
virada para mim. Estava descalça, com um vestido florido puxado até o meio das
coxas e parlando... parlando molto... Eu
dirigindo, com uma das mãos em sua coxa de pele macia, deliciando-me com tudo
aquilo.
Pensa! (expressão essa que
roubei de Vanessa). Paisagens passando pelo para-brisa do pequeno Cinquecento, verão italiano, calor,
estrada e uma linda mulher ao meu lado. O que mais eu podia querer?
Estrada é uma paixão
minha. É um lugar que funciona como uma terapia.
Depois de um bom tempo,
minha amiga dormiu.
Liguei o rádio do pequeno
Cinquecento e coloquei um pendrive
com músicas, que eu havia trazido especialmente para essa ocasião.
Agora eu seguia viagem ouvindo as mesmas músicas que ouvia com Vanessa, quando rodávamos de carro pelas cidades ou nas estradas. Com certeza, se estivesse ali comigo, estaríamos hora cantando, hora brigando por algum assunto nada haver, hora rindo.
Agora eu seguia viagem ouvindo as mesmas músicas que ouvia com Vanessa, quando rodávamos de carro pelas cidades ou nas estradas. Com certeza, se estivesse ali comigo, estaríamos hora cantando, hora brigando por algum assunto nada haver, hora rindo.
Naquele momento, naquela
estrada, não teve como não sentir uma saudade arrebatadora, pois uma coisa era
certa, Vanessa jamais dormiria numa situação dessa.
Mas tenho que dar um
desconto a italiana. A noite anterior foi despedida de nossos amigos de viagem,
então, bebemos mais que a conta. Logo era compreensível.
Na estrada, ouvindo
aquelas musicas, senti um vazio muito grande por não poder dividir o êxtase de
alegria que estava sentido naquele momento. Então, quebrei meu próprio pacto e
mandei uma mensagem para Vanessa. Era um trecho da musica que ouvia naquele
momento e que dizia assim:
“...muito tempo na estrada, muito tempo...”
Enviei lhe apenas esse
trecho da música, nada mais. Ela nem leu.
Foram três horas de
estrada onde minha mente e meu coração desejaram muito sua presença. O mundo
que passava pela minha vista era de uma beleza exuberante.
Pequenas cidades, muito
verde e na via litorânea as fantásticas vistas do mar da ligúria.
Chegando a Genova, pegamos
nosso primeiro quarto com banheira. Um luxo.
Aqui
vou narrar um fato engraçado.
Quando
chegávamos aos hotéis que tínhamos reservados, dizíamos estar em “luna di miele”, ou seja,
estávamos em lua de mel. Isso as vezes nos garantia algumas cortesias
como chocolates, flores e até vinhos. Em Genova essa artimanha nos rendeu nos
um quarto com banheira, sem custos extras.
Enquanto minha amiga
colocava suas roupas no armário, pensei em fazer uma surpresa e fui preparar a
banheira para ela. Seria um banho de espumas relaxante. Quando liguei a hidro e
as espumas começaram a se formar, imediatamente veio uma das lembranças mais doce
que tenho de Vanessa em seu paraíso.
Naquele instante eu a vi em
sua banheira, envolta em espuma, tendo na mão uma taça de vinho. Falando e rindo
de algum fato engraçado que tivesse ocorrido, enquanto eu, sentado em um
banquinho ao lado, enchendo minha taça e rindo junto com ela.
Devo ter ficado alguns minutos nesse devaneio, até ser trazida a realidade pelo chamado de minha amiga. Que pena!
Bem, nos dois dias que
ficamos em Genova fizemos vários passeios. Praias... Calçadões... Vida
noturna... tudo que tínhamos direito.
Por várias vezes, nesses
dias que passei ali, eu me peguei pensando em Vanessa. Não tenho a menor duvida
que ali ela mostrasse todo seu lado GIRALUA. Jantaríamos e ficaríamos até tarde
da noite nos deliciando com aquele local. Regado a vinho, é claro.
É... Em Genova sua falta
foi mais marcante.
Certa feita, de manhã,
perambulando pelas ruelas estreitas da cidade, enquanto minha companheira de
viagem dormia em Euro, deparei-me com a vitrine de uma pequena loja, nela um
par de brincos saltou-me aos olhos, como se estivesse me esperando para
leva-los a Vanessa.
Entrei na loja para compra-los, mesmo “parlando poco italiano”. O vendedor, talvez vendo o encantamento que demostrei pela joia, começou a falar sobre a mesma. Não entendi “niente”, mas deixei o vendedor falar até cansar, mesmo porque é impossível calar um italiano quando ele esta disposto a falar.
Entrei na loja para compra-los, mesmo “parlando poco italiano”. O vendedor, talvez vendo o encantamento que demostrei pela joia, começou a falar sobre a mesma. Não entendi “niente”, mas deixei o vendedor falar até cansar, mesmo porque é impossível calar um italiano quando ele esta disposto a falar.
Não sei oque me fez
compra-los, nunca reparei em Vanessa usando algo parecido, mas estranhamente,
eu conseguia vê-la usando os, passeando pelas areias de seu paraíso, sobre o
sol brilhante, segurando seus chinelos com o mar molhando seus pés.
Só no hotel, lendo os
certificados de garantia, entendi oque o vendedor devia ter tentado me
explicar.
Enquanto traduzia os certificados,
a italiana entra no quarto e eis que aconteceu o primeiro e único atrito que
tivemos durante a viagem.
Abro aspas aqui para
dizer que, com certeza, se Vanessa estivesse nessa viagem, não faltariam
atritos entre nós, pois isso também fazia parte da deliciosa e estranha relação
que tínhamos.
Retornando ao fato,
quando minha companheira viu os brincos na cama, se encantou e pensou que os
tinha comprados para ela. Ledo engano. Expliquei-lhe que eram para uma amiga
muito querida, e naquele momento, é obvio, nossa relação esfriou.
À tarde voltei à loja e
tentei explicar ao lojista que queria comprar outro par de brincos iguais ao
que levei. Não sou de comprar presentes sobre pressão, mas minha amiga estava
sendo uma boa companheira de viagem e não custava fazer-lhe esse agrado. Mas na
loja não havia mais dos tais brincos de Murano. Os que comprei eram únicos e só nos próximos
dias o vendedor receberia mais. Comprei então um brinco de prata.
A sós, à noite, com o
presente nas mãos e ajudado por uma boa garrafa de vinho, consegui trazer minha
amiga ao seu normal. Mas, daquele momento em diante, sempre que via uma
oportunidade, ela perguntava sutilmente sobre minha amiga dos brincos. Mas eu
não dividiria de forma alguma minhas memorias e aventuras com Vanessa. Afinal,
quem entenderia nossa louca relação?
É... em Genova as lembranças e ausência de Vanessa se fizeram
mais presentes.
Retornando ao Brasil,
voltei a minha vida normal. Guardei os presentes. Mesmo que não os entrega-se a
ela, não faria sentido algum dá-los a outra pessoa.
Semanas se passaram, e
eis que num dia qualquer, na estrada, ouço no radio a mesma musica que ouvi a
caminho de Genova, aquela musica que fez romper meu próprio pacto. Estrada...
Mesma música... Então mais uma vez não resisti e enviei lhe a mesma mensagem:
“...muito tempo na estrada, muito tempo...”
Para minha surpresa,
desta vez ela respondeu quase de imediato. Tivemos uma breve troca de mensagens
e tudo continuou como antes.
Combinei então que
deixaria algumas lembranças para ela, na casa de sua mãe. E foi o que eu fiz.

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